quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Tudo Tem Seu Lado Bom

          Dor. Não só uma, mas duas dores. Presentes e vivas, todavia elas eram de naturezas diferentes. Falemos da primeira.

          Levar o corpo ao limite é tão prazeroso quanto dolorido. Correr sem precisar fugir, sem precisar chegar é uma das emoções mais prazerosas que podemos viver. Foi o que fez, em silêncio carregando a poesia começou a correr, correr e correr. Como um contador de histórias foi marchando sem se prender ao caminho, ou ao companheiro ao seu lado. Um, dez, cem, mil metros e seu corpo gritou: "Ei! Eu ainda estou aqui. Para agora, se não nós dois morremos!" E o corredor etéreo desfez-se e voltou a ser humano. Carne, osso e tendões, muitos tendões e todos eles muito doloridos forçando-o a parar, pois mais um lance de corrida o colocaria no chão.

          Caminhar é uma atividade muito prazerosa também, diria minha querida Avó: "caminhar ajuda a pensar". E foi caminhando que ele percebeu que seus limites já haviam sido ultrapassados. O corpo reclamava muito dizendo que aquilo não era jeito de ser tratado, afinal de contas ele não era uma máquina ao dispor do capricho de seu senhor. A alma só queria um pouco mais do prazer de sentir longe daquele chato. As corridas acabaram, o feriado acabou e o presente que trouxe para casa foram duas pernas doloridas. Ainda era um cara legal, mas não podia correr, sentar, chutar, girar ou abaixar-se; restava a ele apenas respirar e digitar.

          Seu computador tinha problemas, não eram técnicos, eram de personalidade. Quando se julgava apto funcionava como uma invenção de Da Vinci, mas se batesse um leve mau humor, não havia quem desse jeito, na realidade havia: O Pai. Se há um desejo no coração de todos os pais é esse: "que os filhos sejam como os computadores." Claro! Assim quando não estiveres nos conformes, ou quando o problema for muito grave formata que resolve. E a conversa começou assim:

          " - Filho, salvou todas as músicas já? Posso formatar?"
          " - Salvei sim, mete bronca."

          Trinta minutos depois tudo estava pronto e nos conformes. Mas foi conversando com Laila que veio a segunda dor. "Li! E gostei muito por sinal". Ela ressaltou detalhes que tinham passados despercebidos por ele no texto... Texto, os textos! A dor foi tão profunda que causou o riso, um riso sutil, sem jeito, como quando contam uma piada na primeira vez que você vai a casa de um amigo. Foi tímido. Sim todas as 2.172 músicas estavam salvas, mas ele esqueceu-se de salvar os textos; esqueceu-se de todos: os filhos feios; os bonitos, aqueles que estavam sendo revisados, os que eram secretos... Tudo perdido. Do meio do riso tímido e sem graça nasceu a vontade de escrever, de falar sobre textos que... Já não existem mais.

          E essa é a história de como perdi todos os meus textos, mas como tudo tem seu lado bom, do riso fez-se a vida, da tragédia nasceu um novo motivo para escrever. Podem acabar com os bites e os bytes , eu uso caneta e lápis; podem me tirar papéis e papiros, escrevo com meu sangue nas rochas. Não importa o que se perde, e sim, o que se tem. E enquanto eu tiver vocês aqui, terei um motivo para escrever.


2 comentários:

  1. Eu não lamento pelos textos que perdi, só pelos que eu ainda não escrevi ;)

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